HOSPITAL DO ESPIRITO SANTO - Associação Cultural Santiago do Cacém

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|  HOSPITAL DO ESPIRITO SANTO


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Hospital do Espírito Santo

O crescimento de Santiago do Cacém, na transição do século XIII para o XIV, levou à expansão do núcleo urbano do interior das muralhas do castelo (a “vila velha”) para a encosta nascente do cerro em que está implantada a fortaleza. A actual Praça Conde de Bracial tornou-se o principal foco polarizador desta fase da vida da localidade e aí surgiram alguns dos seus edifícios mais notáveis. O Hospital do Espírito Santo, com a igreja anexa, terá sido um dos primeiros, a par da antiga Casa da Câmara, que lhe ficava contígua.

Mais do que um estabelecimento hospitalar, no sentido moderno do termo, era uma albergaria onde peregrinos e viajantes pobres se acolhiam durante alguns dias, dispondo de apoios básicos para o seu alojamento. Lembremos, a respeito do peculiar carácter assistencial desta instituição noutros tempos, que a palavra hospital vem do latim hospitale (domus), “casa para hóspedes”.

Em rigor, não se conhecem as circunstâncias exactas que rodearam a fundação do Hospital, mas ela resultou, certamente, da actividade da Confraria do Espírito Santo. A hipótese de que fosse D. Vataça a incentivar tal empreendimento ou, pelo menos, o labor da irmandade representa uma conjectura a considerar, atendendo aos seus laços com a rainha D. Isabel, grande promotora da devoção ao Paráclito, embora faltem documentos que a comprovem.

Ao redor de 1500, uma vez criada a Irmandade da Santa Casa da Misericórdia, o património do Espírito Santo ficou nela incorporado, em virtude da reforma assistencial ditada pelo rei D. Manuel, que levou a concentração dos pequenos hospitais medievos em estruturas dotadas de uma organização mais apurada. Um dos mesários da Misericórdia, o mordomo do Espírito Santo, passou a ser responsável pela gestão do complexo hospitalar.

O terramoto de 1755 arruinou este conjunto. Algumas décadas mais tarde, a Misericórdia optou por reconstruí-lo. Em 1780, para o ampliar, adquiriu, por 10$000 réis, uns pardieiros da Câmara, resquícios dos antigos paços do concelho, que trazia de renda. As obras fizeram-se no tempo em que era provedor Fr. Bernardo Falcão, beneficiado da Colegiada da igreja matriz e autor das Memórias sobre a Antiga Miróbriga. Introduziram-se então notáveis modificações, entre elas uma varanda ligada à praça por duas escadas de pedra.

Se a reedificação dotou o Hospital de instalações mais adequadas, não tardou que o incremento da população o tornasse exíguo. Em 1842, a Misericórdia, lutando com dificuldades económicas, conseguiu um terreno junto ao Cerro da Forca e um generoso donativo de Jacinto Paes de Mattos Moreira Falcão, 1.º conde de Bracial, para a construção de um novo imóvel. Como a obra demorasse, remodelou-se em 1844 o hospital velho. Este transitou para a posse daquele benemérito quando deixou de ser necessário.

Nos primórdios do século XX, a igreja foi adaptada a garagem, modificando-se o portal de modo a permitir a entrada do veículo, da marca Rolls Royce, pertencente aos herdeiros do 2.º conde. O sector hospitalar acolheu, no tempo do Estado Novo, um quartel da Legião Portuguesa, que teve cárcere disciplinar e recebeu episodicamente presos políticos. Algumas dependências do piso térreo serviram, entretanto, de habitação a famílias humildes.

Votado ao abandono durante décadas, o Hospital entrou em profunda degradação. Foi adquirido por uma associação local, a Real Sociedade Arqueológica Lusitana, em 1986, com o propósito da sua musealização. O projecto de reabilitação, da autoria de Eduardo Souto de Moura, aprovado pelo Estado e pelo Município – e já amplamente publicado em Portugal e no estrangeiro –, aguarda concretização. Fizeram-se, entretanto, prospecções arqueológicas no seu interior, que revelaram dados de grande interesse histórico sobre o quotidiano hospitalar.

Apesar das alterações posteriores, o monumento conserva o essencial da sua traça setecentista, deixando transparecer, à imagem da antiga igreja, os ecos de tipologias arquitectónicas e decorativas do Barroco Final e do Rococó, também patentes noutro edifício da Praça, os antigos Paços do Concelho, que datam sensivelmente do mesmo período. No interior conservam-se notáveis traços de uma remodelação quinhentista, de feição manuelina.

José António Falcão

Holy Spirit Hospital (Hospital do Espírito Santo)

The growth of Santiago do Cacém, in the transition from the 13th to the 14th century, led to the expansion of the urban core from inside the castle walls (the “old village”) to the eastern slope of the hill on which the fortress stansds. The current Praça Conde de Bracial became the main polarizing focus of this phase of the town's life and some of its most notable buildings there were build. The Hospital do Espírito Santo, with the attached church, was one of the first, along with the former Casa da Câmara (Town Hall) which it was adjacent to.

More than a hospital, in the modern sense, it was a hostel where pilgrims and poor travelers stayed for a few days, providing basic support for their accommodation. Let us remember, regarding the peculiar assistance character of this institution in other times, that the word hospital comes from the Latin hospitale (domus), “house for guests”.
Strictly speaking, the exact circumstances surrounding the foundation of the Hospital are not known, but it certainly resulted from the activity of the Confraria do Espírito Santo. The hypothesis that it was Vataça who encouraged such an undertaking or, at least, the work of the brotherhood represents a conjecture to consider, given her ties with Queen Isabel, a great promoter of devotion to the Paraclete, although there are no documents that can prove it.
Around 1500, once the Irmandade da Santa Casa da Misericórdia was created, the patrimony of Espírito Santo was incorporated, due to the assistance reform dictated by King Manuel, which led to the concentration of small medieval hospitals in structures equipped with a more refined organization. One of the clerks of Misericórdia, the steward of Espírito Santo, became responsible for managing the hospital complex.

The 1755 earthquake ruined this set. A few decades later, Misericórdia chose to rebuild it. In 1780, in order to expand it, some slums were acquired, for 10$000 réis, in the remnants of the old town halls. The works were carried out in the time when Fr. Bernardo Falcão, beneficiary of the Collegiate Church of the mother church and author of “Memorias sobre a Antiga Mirobriga” (Memories of the Ancient Mirobriga). Notable modifications were introduced then, including a balcony connected to the square by two stone stairs.

If the rebuilding provided the Hospital with more adequate facilities, it did not take long for the increase in population make it small. In 1842, Misericórdia, struggling with economical difficulties, obtained some lands next to Cerro da Forca and a generous donation from Jacinto Paes de Mattos Moreira Falcão, 1st Count of Bracial, for the construction of a new property. As the work to long, the old hospital was remodeled in 1844 and passed into the possession of that benefactor when it was no longer needed.

At the beginning of the 20th century, the church was adapted to a garage, modifying the portal to allow the entrance of the Rolls Royce brand, belonging to the heirs of the 2nd Count. During the Estado Novo period, the hospital sector housed a barracks of the Portuguese Legion, which had a disciplinary prison and occasionally received political prisoners. Some dependencies on the ground floor served, however, as housing for humble families.

Voted to abandonment for decades, the Hospital went into deep degradation. It was acquired by a local association, the Real Sociedade Arqueológica Lusitana, in 1986, for the purpose of its musealization. The rehabilitation project, authored by Eduardo Souto de Moura, approved by the State and the Municipality – and already widely published in Portugal and abroad – awaits completion. In the meantime, archaeological surveys were carried out in its interior, which revealed data of great historical interest about the daily life of the hospital.

Despite the later alterations, the monument retains the essentials of its 18th century design, showing, in the image of the old church, the echoes of architectural and decorative typologies of the Late Baroque and Rococo, also evident in another building in the square, the old Paços do Concelho, which date from roughly the same period. Inside, there are still notable traces of a 16th century remodeling, with Manueline features.


José António Falcão
(Translation of Sérgio Pereira Bento)

Hôpital du Espírito Santo (Saint-Esprit)


Le développement de Santiago do Cacém, à la transition du XIIIe au XIVe siècle, a conduit à l'expansion du noyau urbain de l'intérieur des murs du château (le vieux village) jusqu'au versant oriental de la colline sur laquelle la forteresse est située. L'actuelle Praça Conde de Bracial est devenue le principal centre de polarisation de cette phase de sa vie et sont apparus quelques de ses bâtiments les plus remarquables. L'hôpital de Espírito Santo, avec l'église attenante, a été l'un des premiers, avec l'ancienne Casa da Câmara (Maison de la Mairie), qui lui était adjacente.

Plus qu'un hôpital, au sens moderne du terme, c'était une auberge où les pèlerins et les voyageurs pauvres séjournaient quelques jours, apportant un soutien de base à leur logement. Rappelons-nous, à propos du caractère particulier d'assistance de cette institution en autres temps, que le mot hôpital vient du latin hospitale (domus), “maison pour les hôtes”.

Les circonstances exactes entourant la fondation de l'hôpital ne sont pas connues, mais elles résultent certainement de l'activité de la Confraria do Espírito Santo. L'hypothèse selon laquelle c'est Vataça qui a encouragé une telle entreprise ou, du moins, le travail de la confrérie représente une conjecture à considérer, compte tenu de ses liens avec la reine Isabel, grande promotrice de la dévotion au Paraclet, bien qu'il y a aucun document qui le prouve.
Vers 1500, une fois créée l'Irmandade da Santa Casa da Misericórdia, le patrimoine d'Espírito Santo y est été incorporé, en raison de la réforme de l'assistance dictée par le roi Manuel, qui a conduit à la concentration de petits hôpitaux médiévaux dans des structures équipées d'un système plus raffiné. L'un des commis de Misericórdia, l'intendant d'Espírito Santo, est devenu responsable par la gestion du complexe hospitalier.

Le tremblement de terre de 1755 a ruiné cet ensemble. Quelques décennies plus tard, Misericórdia choisit de le reconstruire. En 1780, afin de l'agrandir, il acquiert, pour 10$000 réis, quelques bidonvilles de l'Hôtel de Ville, vestiges des anciennes mairies, dont il rapporte des revenus. Les travaux ont été réalisés à l'époque où  Bernardo Falcão, bénéficiaire de la Collégiale de l'Église- Mère et auteur de “Memorias sobre a Antiga Mirobriga” (“Souvenirs de l'antique Mirobriga”). Des modifications notables sont alors introduites, dont un balcon relié à la place par deux escaliers en pierre.
Si la reconstruction a fourni à l'hôpital des installations plus adéquates, rapidement l'augmentation de la population le rende petit. En 1842, Misericórdia, avec des difficultés économiques, obtint un terrain à côté de Cerro da Forca et une généreuse donation de Jacinto Paes de Mattos Moreira Falcão, 1er comte de Bracial, pour la construction d'une nouvelle propriété. Les travaux prenant du temps, l'ancien hôpital est remanié en 1844. Celui-ci passa en la possession de ce bienfaiteur lorsqu'il n'en eut plus besoin.

Au début du XXe siècle, l'église est adaptée en garage, modifiant le portail pour permettre l'entrée du véhicule, de la marque Rolls Royce, appartenant aux héritiers du 2e comte. Pendant la période du Estado Novo, le secteur hospitalier abritait une caserne de la Légion Portugaise, qui disposait d'une prison disciplinaire et recevait occasionnellement des prisonniers politiques. Quelques dépendances au rez-de-chaussée servaient cependant de logement à des familles modestes.
Voté à l'abandon pendant des décennies, l'Hôpital est entré dans une profonde dégradation. Il a été acquis par une association locale, la Real Sociedade Arqueológica Lusitana, en 1986, pour muséalisation. Le projet de réhabilitation, rédigé par Eduardo Souto de Moura, approuvé par l'État et la Municipalité - et déjà largement publié au Portugal et à l'étranger - est en attente d'achèvement. Entre-temps, ont été menées des prospections archéologiques à l'intérieur, et elles ont révélé des données d'un grand intérêt historique sur la vie quotidienne de l'hôpital.

Malgré les modifications ultérieures, le monument conserve l'essentiel de sa conception du XVIIIe siècle, montrant, à l'image de l'ancienne église, les échos des typologies architecturales et décoratives du baroque tardif et du rococo, également évidents dans un autre bâtiment de la place, le vieux Paços do Concelho, qui datent à peu près de la même période. A l'intérieur, il y aencore des traces notables d'un remaniement du XVIe siècle, avec des éléments manuélins.


José António Falcão
(Traduction de Sérgio Pereira Bento)

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